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O CONFLITO COMO PROCESSO: A CONCILIAÇÃO NUMA VISÃO SISTÊMICA

“Nossa maior grandeza está na suavidade e ternura de nosso coração…” (Rumi)

O objetivo deste artigo é demonstrar como a rotineira forma cartesiana de lidar com o conflito, de perceber a questão apenas por um único episódio e de meramente apontar culpados é ineficiente e com a grande possibilidade de aumentar ainda mais o grau de conflituosidade entre as partes.

A esposa que abandona os filhos, o marido que trai a esposa (ou vice-versa), a mãe que prefere o filho mais novo que se aproveita da situação e não progride na vida, o pai que bebe e agride a esposa são situações que comumente são levadas para as salas de audiência em sede judicial e o juiz é impelido a dar razão a uma das partes.

Tem uma velha estória de Nasrudin, personagem persa, que trata deste tema:

Nomeado juiz, lhe foi apresentado o primeiro processo, durante o julgamento, o queixoso foi tão persuasivo que o fez exclamar:

“Parece-me que tem razão!”

O velho escrivão, experiente e diligente, com respeito e consideração, cochichou para Nasrudin: “Excelência, por favor contenha-se.

Ainda não ouvimos o arguido.”

Ouvido este, tão persuasivo quanto o outro, disse Nasrudin:

“Penso que a razão está do seu lado!”

O escrivão não se conteve: “Excelência, pode lá a razão a ambos assistir?!”

“Parece-me que você tem razão”, respondeu Nasrudin.

 

Mas, parece um pouco disruptivo dizer paras as partes, numa conciliação, que ambas possuem suas justas razões. Para tanto, vamos enunciar uma hipótese para deixar claro que dar razão a uma das partes é como querer conhecer um filme através de sua foto ilustrativa. Vamos à hipótese:

CARLOS está casado com JOANA há dez anos e adveio desta relação uma pequena e linda filha de nome JULIA. Possui um ótimo emprego e faz atividades físicas regularmente. Compraram um apartamento no bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Viajam, pelo menos, uma vez ao ano para o exterior e seus planejamentos são sempre realizados em conjunto com sua esposa. Uma vida dos sonhos, CARLOS sempre pensa assim, pois veio de uma humilde família, estudou Direito no Largo do São Francisco, logrando aprovação no vestibular dificílimo, em que pese ter estudado sempre em colégio público.

Mesmo assim, CARLOS não se sente totalmente bem, pois possui uma angústia em seu peito, notadamente quando consegue mais uma vitória. E, sempre quando há um motivo para comemorar, esta emoção o toma conta e, não conseguindo se entregar à felicidade, cai no choro. JOANA, sua esposa, atlética e comunicativa, feliz pela vida que possui com o esposo, não entende o que se passa com CARLOS, que, por sua vez, vem desconfiando da extrema alegria da esposa e já pensa que ela esteja envolvida num relacionamento extraconjugal, até por não possuírem atividade sexual regular.

E, a pergunta que CARLOS sempre se faz é: Eu posso ser feliz?

Apesar do caso acima ser hipotético, não deixa de ser comum. Quantas pessoas fruem prósperas vidas e não conseguem desfrutar a devida felicidade. Há até o dito popular: “dinheiro não traz felicidade”. Um leitor pode até dizer: “CARLOS pensou que a vida material o bastasse e não buscou o lado espiritual”. Pode até ser, respondo. Mas, contra-argumento: “quantas pessoas sentem culpa de serem felizes?

Mas, vou completar a hipótese:

CARLOS começa a sentir que sua bela esposa está feliz além do normal e passa a sentir um profundo ciúmes e o conflito entre o casal começa a ser constante. Resolvem fazer uma grande reforma no imóvel adquirido, implementando tudo o que o casal imagina que fosse bom para melhorar a relação do casal: móveis caros, ofurô com luzes coloridas(visando melhorar a vida sexual do casal), ambientes próprios para receber os amigos do esposo. Durante a obra, passaram dois meses num local, perto do imóvel, para não atrapalhar os estudos da pequena JULIA e manter a rotina da esposa.

Ao voltar para o apartamento, JOANA, percebendo que o marido ainda não estava totalmente feliz, providenciou um almoço de domingo para os pais de CARLOS. Durante a sobremesa, JOANA sugeriu que a família de origem do marido se mudasse para o imóvel que o casal morava, o que deixou todos muito felizes, menos o marido, que, apesar de ter gostado muito da ideia, não conseguia ser totalmente feliz.

JOANA sempre foi uma excelente mãe, cuidando dos afazeres do colégio de JULIA e providenciando as necessidades de casa, nutrindo o lar de amor, mas sempre foi um pouco distratada pelo esposo e, realmente, começou a perder o encanto, buscando nas conquistas do casal e na educação da filha, a felicidade que o marido não conseguia compartilhar. Por outro lado, CARLOS sempre vinha se queixando de uma angústia que não sabia explicar e também do pouco contato que tinha com a filha. No início, pensava que este afastamento se daria por conta do excesso de trabalho, tendo pouco convívio com a filha; mas, depois de algumas viagens juntos, percebeu que a filha não conseguia estar muito próxima, pois preferia o abraço da mãe, o que o deixava ainda mais infeliz.

Certo dia, numa viagem de rotina de trabalho para a cidade de Belo Horizonte, conhece HELENA, também advogada, que defendia os interesses da parte contrária. Elegante, sarcástica e também atlética, começou a fazer pouco da inteligência de CARLOS, o que o atraiu profundamente. Marcaram um jantar para tentar conciliar a questão de seus clientes num restaurante japonês. Até houve acordos, mas não no plano negocial.

Este relacionamento extraconjugal fez com que CARLOS ficasse ainda mais irritadiço com JOANA e o deslinde da relação parecia estar muito próximo, até que, a esposa busca a ajuda de LUANI, famosa terapeuta sistêmica de casal de São Paulo. A esposa começou a chorar, dizendo para a terapeuta que nunca pensou estar vivenciando isto. Projetou a sua vida amorosa como a de seus pais: ter um cuidado todo especial com a filha, já que o esposo trabalha muito e não tem tempo para ficar com a prole. Isto também aconteceu com seus pais, relatou. O pai de JOANA também foi advogado e viajava muito, enquanto que a mãe estava sempre presente.

Habilmente, LUANI perguntou a JOANA se seu pai possuía relacionamentos extraconjugais, e a mesma respondeu que SIM.

Um leitor pode vislumbrar: “como pode ter tudo e ainda permanecer triste? E, ainda mais, trai a bela esposa! Ele é o culpado dos conflitos”. Outro leitor pode dizer: “A esposa deveria se desocupar um pouco da filha e ser mais atenciosa com o marido. A culpa é dela”. Já um terceiro: “A culpa é da advogada HELENA”.

Bert Hellinger utiliza o uso do termo “culpa” em algumas situações, como, por exemplo, quando recebemos de alguém, nasce uma necessidade de devolver, para o equilíbrio da relação. Esta necessidade estará imbuída de uma culpa. Enquanto não devolver, a pessoa se sentirá culpada e a relação estará em desequilíbrio. E, quando se devolve, volta a ficar “inocente”. Na hipótese acima, o marido recebia carinho da esposa, mas não conseguiu devolver na mesma medida. Então, buscou compensar com bens materiais. Ele fez o máximo que pode, pois a angustia que sentia, não o permitiu devolver o carinho recebido. E a esposa? Ao receber do marido agressões verbais, deveria devolver na mesma medida? Esta é a hipótese de culpa má. Ao receber algo que não é bom, para manter o vínculo, há necessidade de devolver na mesma medida.

Esta é uma questão muito debatida por Bert Hellinger. Então, o leitor pode argumentar: a esposa ao ser traída, deve devolver na mesma moeda? A questão aqui é o vínculo. Pode a esposa “perdoar”. Mas, este perdão somente será eficiente se não se sentir melhor do que o marido, ou seja, que não seja uma atitude de permanecer acima do esposo e ter sempre “uma carta na manga” contra este. Nesta hipótese, podem até permanecer juntos, mas o vínculo não será o mesmo. Então, há de se ter em mente sempre que é uma questão de escolha: se o casal quer se manter unido, mesmo após um relacionamento extraconjugal, há de se aceitar que o outro também vivencie o mesmo, para que um não se sinta melhor que o outro, além de se manterem no justo equilíbrio na dinâmica do “dar e receber” do casal.

Mas, vamos avançar um pouco na hipótese: Qual a consequência de a esposa não devolver na mesma medida? Nasce uma raiva na esposa, mesmo que contida. Mesmo que ela tenha como seu valor não devolver uma grosseria do esposo, quiçá uma traição, poderá permanecer em seu inconsciente uma raiva qualificada por ter sido desrespeitada pelo marido que poderá ser captada por sua filha JULIA. Algum leitor pode estranhar: “como captar? ” Sim. O ser humano é como uma antena, diante de sua comunicação empática, plenamente comprovada através dos neurônios espelhos.

Imagina-se que a pequena JULIA tenha efetivamente captado esta questão. O que pode acontecer? Entrar na mesma frequência e devolver a traição sofrida por sua mãe. E, o futuro esposo da filha sofrerá o que Hellinger chama de dupla transferência, pois além da questão não resolvida pela mãe ser transferida para a filha, ainda surge um outra que é o futuro marido sofrer uma traição.

Mas, voltemos ao conflito original: que angústia é aquela sofrida por CARLOS, que parece central de todo o conflito? Possibilidades: apesar de o marido ter uma consciência[2] psicológica ou individual de propiciar o melhor para si e para sua família em termos de conforto e segurança financeira, ainda se sentia “culpado” em sua consciência sistêmica ou coletiva. Ora, a cada passo de crescimento que dava, mais se sentia “mal”, pois, inconscientemente, ainda estava ligado ao sofrimento de sua humilde família de origem. Na hipótese, há um choque entre as consciências psicológica e sistêmica. É tão presente na vida de todos nós isto que pode ser uma causa de somatizações e doenças.

Ora, podemos dizer que CARLOS é culpado por estar ligado inconscientemente ao sofrimento de seu sistema de origem? Quantas pessoas não conseguem construir um lar harmonioso em decorrência de ter aprendido em sua família de origem uma forma de amar mais conflituosa? Será que seria útil um juiz ou conciliador dizer: “você não é uma boa pessoa por não tratar bem sua esposa!” Ora, ele faz seu máximo, cria condições de conforto suficientes para a família. Mas, não consegue desfrutar por completo, não porque não queira. Na verdade, ele mesmo, nem sabe a causa. Mas, podemos dizer que ele é o culpado disto? Não ter um bom trato com a esposa é algo que não se deve defender. E seria um indicativo para que CARLOS buscasse uma forma de se melhorar. Mas, ele preferiu uma outra maneira de uma vida melhor: foi buscar num relacionamento extraconjugal a felicidade que não conseguia ter.

No caso, qual seria a participação da amável esposa JOANA? Será que ela pode ter contribuído para o relacionamento extraconjugal de seu esposo? A pergunta que podemos fazer é a seguinte: o que fez JOANA atrair um marido que tivesse rotina semelhante de seu pai, com intenso trabalho e viagens? O que a fez ter a mesma forma de proceder que a mãe: muito próxima da filha e esquecendo, um pouco, a conexão com o esposo? Como grande possibilidade, podemos dizer que ela segue os passos da mãe. Descobriu que a forma de amar e se posicionar na família é a mesma que sua mãe assim o fazia e se sente muito bem. Talvez, ter uma atividade sexual regular com o marido e deixar um pouco a filha para ficar com o esposo a tornasse culpada em relação à mãe.

Sendo assim, será que JOANA, de alguma forma, contribuiu para o conflito entre o casal?  Efetivamente sim. Em regra, não há conflito em que as partes envolvidas não sejam corresponsáveis. Na hipótese acima, em que poderíamos ainda comentar mais outras possíveis dinâmicas, tanto de JOANA, quanto de CARLOS, ambos estavam ligados aos seus sistemas de origem que contribuíram para que a conexão entre eles se perdesse, dando oportunidade para a formulação de um triangulo amoroso.

E quando este conflito começou? O que chamamos de conflito, em verdade, é apenas a ponta de um iceberg, pois há várias camadas que dão sustentação a este evento que pode ser muito proveitoso para os envolvidos. Isto porque, através da contenda, pode-se perceber as diversas dinâmicas sistêmicas que as pessoas estão envolvidas e, uma vez tomada a consciência, poderão viver melhor, livres para terem, cada vez mais, autonomia sobre suas vidas.

Se o conflito pode ser visto como um processo, a sua resolução através da mera imputação de culpa para uma das partes somente agrava ainda mais a situação dos contendores, pois irão forçar para o inconsciente a dinâmica que fez surgir a situação queixosa. Por exemplo: se numa eventual audiência diz-se para CARLOS que ele é culpado por ter uma relação extraconjugal, há o divórcio e a mãe pode passar para a filha a noção de que o pai não foi bom o suficiente, fazendo críticas, gerando a exclusão deste na mente da pequena JULIA. Qual a possível consequência? Será que ela não poderá atrair um futuro marido em que o tema traição estará em questão também?

Por fim, o juiz ou o conciliador não podem se sentir superiores ou melhores do que aqueles que estão em contenda, muito menos impor seus valores pessoais aos conflituosos, pois ao invés de melhorar a situação, vão acabar piorando. Cada um tem sua própria forma de solucionar suas questões e, dentro de suas perspectivas e possibilidades vai construir a melhor situação e este é o objetiva da solução dos conflitos através de métodos sistêmicos e construtivos.

Autor: YULLI ROTER MAIA

 

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2019-01-14T17:46:44+00:00